Às vezes tenho medo de ter coisas boas porque, cedo ou tarde, as perdemos, fatalmente as perdemos, e ficamos tristes. Tenho medo de ter o cepticismo face à vida que tanta gente tem depois do confronto com a incompreensível e avassalante rapidez com que a vida nos tira o chão de debaixo dos pés e nos deixa pendentes no vazio. Os encontros na vida são tão raros que dói saber que no final da esquina acena um desencontro. Há um drama, um imenso drama que experimento nos momentos de alegria, a que chamo “saudade antecipada”. Para abrandá-lo, vez por outra me imponho o exercício de me conscientizar do não ter na hora de ter. Funciona mais ou menos assim: quando me sinto fortemente entusiasmada com algo, mentalizo:
isto passará. Faço o mesmo, mas com bem menos freqüência, nos raros momentos de melancolia:
isto também passará.
Talvez por isso o “The Curious Case of Benjamin Button” seja um dos contos do Fitzgerald que mais me dão um nó na garganta, de uma lista onde estão “O amor à noite”, “A Escada de Jacob” e o “Diamante do Tamanho do Ritz”. Fitzgerald é agridoce. Há sempre um infortúnio iminente pairando sobre suas personagens em todas as histórias, mesmo as com final feliz. Se tivessem trilha-sonora, os três primeiros versos de bittersweet synphony do
The Verve lhes cairiam como uma luva. Não me recordo de alguma vez ter vertido uma lágrima depois de um ponto final do escritor norte-americano. Nó na garganta e perplexidade diante de algo grande, isso sim, frequentemente.
Em compensação foi impossível me conter ao assistir a adaptação para o cinema. A produção, ao contrário da adaptação sem tirar nem por do The Great Gatsby, passa tangente ao enredo original do conto. Ainda assim faz juz ao escritor quando descreve a tintas fortes e com beleza um simples entardecer, os ruídos da cidade em movimento, as rachaduras nas calçadas, o estalar do assoalho em casa. O roteiro para cinema criou com louvor uma experiência de vida, com todos seus altos e baixos, do túmulo ao berço, relativizando a efemeridade, os encontros e desencontros. Essa sensibilidade - latente neste e noutros contos de Fitzgerald – a produção levou ao extremo de forma impecável.
Na adaptação, Benjamin cresce numa casa de idosos, e consequentemente amadurece num mundo de pessoas em paz com sua própria mortalidade, não há muita coisa que o assuste. Portanto, ainda muito jovem, os aspectos mais profundos da morte lhe são familiares. Em ambos, o jovem Button é impacto por seus relacionamentos, lembrando com ardor de seu primeiro beijo, seu primeiro amor. Contudo, no conto, seu casamento com Hildergade se deteriora com o tempo:
“There was only one fly in the
delicious ointment--he hated to appear in public with his wife.
Hildegarde was almost fifty, and the sight of her made him feel
absurd....”Enquanto isso, no cinema..
Benjamin conhece Daisy (Hildergade, do conto) quando ambos são crianças, ela visita assiduamente a avó em Nolan House, onde ele mora com os pais postiços. Uma história de amor se desenrola a partir desses encontros; a menina ruiva parece enxergar a criança que vive por baixo da sua superfície idosa e incapacitante. Definitivamente, há algo muito poético nessa condição, o filme mostra isso claramente. Imagine aceitar a idéia de envelhecer enquanto a pessoa que você ama caminha para a juventude? Not easy, nor fun. Ao contrário do filme, o conto não nos faz essa pergunta, não diretamente. Mas se há um mérito naquele é o de ter conseguido acentuar o elemento-chave deste, a saber, que é nos encontros que as perdas se instalam, em meio às transas complexas e difíceis dos relacionamentos afetivos.
Gosto de pensar que toda essa brincadeira funciona como uma espécie de treino, uma provocação de desencontros preparatórios para o
grand finale. Qual o objetivo do jogo? Aceitar as inevitabilidades da vida. Entender que as pessoas vão e vêm, que elas partem, seja por opção ou por simplesmente ter deixado de existir. Da mesma forma que nós também partiremos. É um jogo sem ganhos, nem perdas. Do jeito que começamos, terminamos - calvos, banguelas e de fraldas; só a expressão no rosto é que muda, os risos gratuitos da aurora se vão, desconheço o destino. O final que nos diz respeito já conhecemos há tempos. O grande barato é como lidamos com tudo isso.
..de volta aos estúdios:
Diretor, intérpretes, fotografia, música e principalmente a cadência com que a narrativa nos é apresentada, sem dúvida, justificam os prêmios a que o filme está concorrendo.